Formação de profissionais de saúde
em crack, álcool e outras drogas.

Por Isabel Weiss
Data:17/04/2011

Muitas são as variáveis que podem influenciar a implantação de procedimentos de detecção e intervenções ao uso de álcool, crack e outras drogas no contexto da saúde, já consagradas pela literatura: falta de tempo dos profissionais e sobrecarga de trabalho, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), alta rotatividade entre os profissionais, falta de infra-estrutura (VIANNA, 2008), forma de organização dos serviços e sistemas de saúde (BABOR; HIGGINS-BIDDLE, 2000), desmotivação para atuar nas ações de promoção de saúde de uma maneira geral (RONZANI, 2002) e etc.

Mas existe uma deficiência considerada de base que sabidamente afeta a incorporação destas práticas na rotina dos profissionais. A formação do profissional de saúde é ainda muito deficitária no tocante a álcool, e outras drogas, tanto em países desenvolvidos, quanto naqueles em desenvolvimento (LUIS et al., 2004). Acerca da demanda de pacientes que apresentam algum transtorno por conta do uso indevido de álcool e outras drogas, embora a promoção e prevenção estejam referidas na política do Ministério da Saúde, não há definição clara ou objetiva das estratégias de ação para cada nível, ocorrendo muitas vezes subnotificação de casos e negligência de cuidados (BALLBÈ et al., 2009; RONZANI, 2005; RONZANI, 2008). Tais fatores denotam a relevância de uma proposta de capacitação para os profissionais de saúde que atuam na rede de atenção integral à saúde e de assistência social com usuários de crack e outras drogas e seus familiares.

Estudos confirmam que o mais importante aspecto de um programa educacional em saúde (além dos já conhecidos: conhecimentos, mudanças de atitudes e desenvolvimento de habilidades) é conseguir disponibilizar o aprendizado da prática clínica para o cuidado de qualidade (RASSOOL; RAWAF, 2007).

Sentir-se seguro em relação ao como agir diante de um problema clínico qualquer é um dos principais fatores de adesão a uma diretriz (guideline) e é isto que faz com o que o profissional de saúde acabe encontrando tempo para atuar na prevenção de problemas como a diabetes, hipertensão, e mais recentemente, tabagismo. Pois pesquisas confirmam que os profissionais acabam por eleger como prioridades de rastreamento em sua prática diária na APS problemas de saúde para os quais eles detêm conhecimento e ferramentas comprovadamente eficazes para atuarem (AIRA et al., 2003; CABANA et al., 1999).

A inserção de prática de prevenção em crack, álcool e outras drogas na rotina da assistência estaria condicionada, portanto, dentro desta perspectiva, ao treinamento dos profissionais em relação à prática clínica: como identificar casos precocemente e como proceder diante da confirmação dos mesmos, viabilizando avaliação de resultados terapêuticos e supervisão, pensando colaborativamente.

Enfim, as capacitações para atuação na prevenção em problemas relacionados a drogas são necessárias, fundamentais, pois sabidamente contribuem para a inserção de práticas de prevenção na prática diária da assistência (NILSEN et al. 2006; FUNK et al. 2005; PELTZER et al., 2004).

Projetos como esse de implantação de Centros de Referência para Formação Permanente dos profissionais que atuam nas redes de atenção integral à saúde e assistência social, vão ao encontro do que se preconiza: para haver incorporação de mudanças na prática de saúde, como intervenções em álcool e outras drogas, as capacitações devem acontecer no contexto da educação permanente (BENDTSEN; AKERLIND, 1999; CAMARGO JÚNIOR et al., 2008; FOX; BENNETT, 1998), somada à auditoria, pesquisa e prática clínica comprovadamente eficaz (CALMAN, 1998; CANTILLON; JONES, 1999), próximas ao âmbito de atuação do profissional, para que haja sustentabilidade.

O que se espera é a superação do modelo de serviços centrados em procedimentos para serviços que consigam implementar espaços de discussão, análise, supervisão e reflexão da prática no cotidiano do trabalho com eixo na integralidade e autonomia (CECCIM, 2005; CECCIM, 2007).

O conhecimento produzido na rede acadêmica não pode continuar alienado dos serviços, na contramão do que hoje se espera numa ação de capacitação, que é produzir e disseminar conhecimentos, tecnologias que se sustentem no processo (BUSS, 1999).

Referências

  • AIRA, M. et al. Factors influencing inquiry about patients’ alcohol consumption by primary health care physicians: qualitative semi-structured interview study. Family Practice, Oxford, v.20, n.3, p.270-275, 2003.
  • BABOR, T.F.; HIGGINS-BIDDLE, J.C. Alcohol screening and brief intervention: dissemination strategies for medical practice and public health, Addiction, Oxfordshire, v.95, n.5, p.677-686, May 2000.
  • BALLBÈ, M. et al. Impacto de la formación en intervención breve. Diferencias en el abordaje hospitalario del consumo de tabaco y alcohol = Impact of a training in brief intervention. Differences in the hospital approach of tobacco and alcohol consumption. Adicciones, Palma de Mallorca, v.21, n.2, p.113-118, 2009.
  • BENDTSEN, P.; ÂKERLIND, I.A. Changes in attitudes and practices in primary care with regard to early intervention for problem drinkers. Alcohol & Alcoholism, Oxford, v.34, n.5, p.795-800, 1999.
  • BUSS, P.M. Promoção e educação em saúde no âmbito da Escola de Governo em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.15, p.177-185, 1999. Suplemento 2.
  • CABANA, M.D. et al. Why don't physicians follow clinical practice guidelines? A framework for improvement. The journal of the American Medical Association, Chicago, v.282, n.15, p.1458-1465, Oct. 1999.
  • CAMARGO JÚNIOR, K.R. et al. Avaliação da atenção básica pela ótica politico-institucional e da organização da atenção com ênfase na integralidade. Cadernos de Saúde Pública, Rio e Janeiro, v.24, p.58-68, 2008. Suplemento 1.
  • CALMAN, K. A review of continuing Professional development in general practice: a report by the Chief Medical Officer. London: Department of Health, 1998.
  • CANTILLON, P.; JONES. R. Does continuing medical education in general practice make a difference? British Medical Journal, London, v.318, n.7193, p.1276-1279, May 1999.
  • CECCIM, R.B. Educação permanente em saúde: desafio ambicioso e necessário. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v.9, n.16, p.161-177, fev. 2005.
  • CECCIM, R.B. Um sentido muito próximo ao que propõe a educação permanente em saúde. Interface: comunicação, saúde, educação, Botucatu, v.11, n.22, p.343-363, maio/ago. 2007.
  • FOX, R.D.; BENNETT, N.L. Learning and change: implications for continuing medical education. British Medical Journal, London, v.316, n.7.129, p.466–468, Feb. 1998.
  • FUNK, M. et al. A multicountry controlled trial of strategies to promote dissemination and implementation of brief alcohol intervention in primary health care: findings of a World Health Organization collaborative study. Journal of Studies on Alcohol, New Brunswick, v.66, n.3, p.379-388, May 2005.
  • LUIS, M.A.V. et al. Experiencia de cooperación entre universidad y organización internacional para capacitar enfermeros docentes de La America Latina para La investigación del fenómeno de las drogas. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v.12, p.307-315, abr. 2004. Número especial.
  • NILSEN, P. et al. Effectiveness of strategies to implement brief alcohol intervention in primary healthcare. Scandinavian Journal of Primary Care, Odense, v.24, n.1, p.5-15, 2006.
  • PELTZER, K. et al. Training primary care nurses to conduct alcohol screening and brief interventions in the Limpopo Province. Presentesd at the Symposium on Screening and Brief Intervention of Alcohol Problems in South Africa. 2004, Turfloop, University of the North. Disponível em:http://www.hsrc.ac.za/research/output/outputDocuments/3084_Peltzer_Trainingprimarycarenurses.pdf. Acesso em: 21 set. 2008.
  • RASSOOL, G.K.; RAWAF, S. Educational intervention of undergraduate nursing students’ confidence skills with alcohol and drug misusers. Nurse education today, Edinburgh, v.28, n.3, p.284-292, Apr. 2008.
  • RONZANI, T.M. Nova Política, velhas práticas: um estudo de Identidade de Médicos de PSF. 2002. 171f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social)– Faculdade de Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2002.
  • RONZANI, T.M. Avaliação de um processo de implementação de estratégias de prevenção ao uso excessivo de álcool em serviços de atenção primária à saúde: entre o ideal e o possível. 2005. 159f. Tese (Doutorado em Psicobiologia)– Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2005.
  • RONZANI, T.M. Padrão de uso de álcool entre pacientes da atenção primária à saúde: estudo comparativo. Revista de APS, Juiz de Fora, v.11, n.2, p.163-171, abr./jun. 2008.
  • VIANNA, V.P.T. Eficácia de uma sessão de intervenção breve na redução do uso de álcool e problemas relacionados. 2008. 94f. Tese (Doutorado em Psicobiologia)– Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2008.